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 Asunto: Carlota Joaquina de Bourbon
NotaPublicado: 18 Abr 2019 19:08 
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Esta é a primeira vez que inicio um tópico neste foro.
Espero que vos agrade.

Elegi como tema Carlota Joaquina de Bourbon, uma das rainhas que os portugueses mais amam odiar :twisted: .

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Filha primogénita (sobrevivente) de Carlos (IV) Príncipe das Astúrias e Maria Luisa de Parma, Carlota Joaquina Teresa Cayetana nasceu a 25 de Abril de 1775 no palácio de Aranjuez (embora outros autores refiram o palácio do Pardo), quando reinava seu avô Carlos III.


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Carlos III era um homem reservado que fugia da vida mundana, vivendo com alguma frugalidade, razão pela qual a nora Maria Luisa adquiriu ascendente na corte e se tornou o centro das festas e outras animações onde a moral era facilmente esquecida.
Esta ligeireza de costumes muito contribuiu para a sua “lenda negra”.

Carlota Joaquina teve uma infância comum a todas as princesas da época, estudando línguas, história, religião e etiqueta e sobretudo equitação, a sua distracção favorita.

Tendo-se apercebido que Espanha tinha tido Rainhas reinantes, e uma vez que os seus irmãos mais novos nasciam e morriam logo a seguir, acalentou a ideia de vir a ser rainha de Espanha por direito de primogenitura.
Ideia a que o avô Carlos III rapidamente pôs um fim ! Afinal, em Espanha vigorava a Lei Sálica desde Filipe V.

A relação com os Pais terá sido distante, como era hábito, se bem que, mais tarde, em Lisboa, se correspondesse regularmente com a Mãe.
A mãe, Maria Luisa, andava constantemente grávida, tendo tido 9 filhos (e sofrido 4 abortos) até Carlota Joaquina abandonar definitivamente Espanha em 1785, com apenas 10 anos para casar com o Infante D.João de Bragança, senhor do Infantado e Duque de Beja, filho segundo da Rainha D.Maria I (1734-1816) e de seu marido e tio D.Pedro III (1717-86).

Filhos de Carlos IV e Maria Luisa:
1. Carlos Clemente (1771-74)

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2. Carlota Joaquina (1775-1830)
3. Abortou de 2 filhas em 1775 e 1776
4. Maria Luisa (1777-82)
5. Novo aborto em 1778

6. Maria Amália (1779-98) Feia, desinteressante e rabujenta, a Mãe arranjou-lhe casamento com o sobrinho Luis, príncipe herdeiro de Parma. Este veio para Madrid para concluir a sua educação. Era um jovem de boa aparência e carácter e interessado pela ciência. Tímido como Maria Amália, depressa ficou seduzido com a irmã mais nova de Maria Amália, Maria Luisa, mais bonita, amável e de boa disposição. Carlos e Maria Luisa aceitaram a troca da noiva, mas por razões protocolares era necessário que Maria Amália, sendo mais velha, casasse primeiro que Maria Luisa, ou tal representaria uma humilhação para a rejeitada.
Era preciso encontrar rapidamente um pretendente pois Luis de Parma e Maria Luisa de Espanha pretendiam casar quanto antes.
O noivo encontrado foi o infante António Pascoal (1755-1817), tio paterno da infanta e 24 anos mais velho.
De inteligência limitada, vivia para a jardinagem, agricultura e caça, dedicava-se aos ofícios de carpinteiro e encadernador e tocava flauta de Pã .
Em 1795, realizou-se um duplo casamento Antonio Pascoal-Maria Amália e Luis de Parma-Maria Luisa.
O casamento durou pouco, tendo Maria Amália morrido de parto em 1798, juntamente com o filho que esperava

Maria Amalia e Antonio Pascoal

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7. Carlos Domingos (1780-83)
8. Novo aborto em 1781
9. Maria Luisa (1782-1824) a infanta que conquistou Luis de Parma Rei da Etrúria (1773-1803).
Foi um casamento feliz, assombrado pela má saúde do príncipe que faleceu com apenas 30 anos, deixando 2 filhos.


Imagen[url=https://postimg.cc/ct4Bn6Td]
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10/11. Gémeos Carlos Francisco de Paula e Felipe Francisco de Paula (1783-84)

12. O último irmão que Carlota Joaquina terá conhecido foi o futuro Fernando VII, nascido em 1784.

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Depois deste, teve ainda 6 irmãos que nunca conheceu :

13. Carlos Maria Isidro, conde Molina (1788-1855)

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14. Maria Isabel, rainha das Duas Sicílias pelo casamento com Francisco I (1789-1848)

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15/17 3 abortos entre 1789 e 1790,
18. Maria Teresa (1791-94)
19. Felipe (1792-94)
20.novo aborto em 1793 e
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21. Francisco de Paula (1794-1865).

Sofreu ainda 2 abortos em 1796 e 1799 :surprised: Uff!


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Carlota Joaquina ao tempo do compromisso com D.João

Família de D.João :

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O noivo escolhido para Carlota Joaquina foi o Infante D.João de Bragança (1767-1826) filho da Rainha D.Maria I (1734-1816) e do Rei-Consorte D.Pedro III (1717-86).

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D.Maria I era filha do rei D.José I (1714-77) e de Mariana Victoria de Bourbon (1718-81)

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filha de Filipe V e Isabel Farnese.

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D.Pedro III (1717-86), irmão de D.José I, era filho de D.João V (1689-1750) e D.Maria Ana de Habsburgo (1683-1754)

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filha do Imperador Leopoldo I e de Leonor de Neoburgo.

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Leonor de Neoburgo teve como irmãs Maria Sofia, casada com D.Pedro II de Portugal,mãe de D.João V, e avó de D.José e D.Pedro III,

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Maria Ana de Neoburgo, esposa do desafortunado Carlos II, o último Habsburgo espanhol
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D.Maria I e D.Pedro III, sobrinha e tio, formaram um casal muito devotado um ao outro e tiveram 7 filhos, dos quais apenas 3 chegaram à idade adulta: O primogénito, D.José (em memória do avô), Principe da Beira e do Brasil (1761-88), D.João (1767-1826) e D.Mariana Victoria (em memória da avó) (1768-88).


O Rei D.José tinha pouca disposição para governar, deixando esse assunto para o todo-poderoso primeiro ministro, Sebastião José de Carvalho e Melo (1699-1782), mais tarde criado conde de Oeiras e marquês de Pombal, oriundo da pequena nobreza não-titular portuguesa.
Sebastião José tinha sido embaixador de Portugal em Londres e Viena, e nesta cidade casou em segundas núpcias com Eleonor Ernestina (1721-89), filha do conde de Daun.
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D.João V aconselhou o filho que nomeasse Sebastião José Carvalho e Melo como primeiro-ministro, facto que mereceu o acordo (raro !) da Rainha Maria Ana de Áustria que se tornara amiga e confidente da sua compatriota Eleonor Ernestina Daun.
D.José preferia dedicar-se aos seus desportos favoritos – a caça, a música e as mulheres, não necessariamente por esta ordem :whistling: … dando carta branca ao primeiro-ministro para governar.

Era o período do despotismo iluminado.

Pombal teve plenos poderes para governar, de forma ditatorial por vezes brutal, tendo desenvolvido a indústria nacional, procurando manufacturar em Portugal bens que eram importados sobretudo de França e que sobrecarregavam o erário público e eram fonte de saída de recursos.

Criou fábricas de sedas, tecidos diversos, porcelanas e deve-se-lhe a 1ª delimitação mundial de uma região vinícola – a do vinho do Porto.
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Legislou ainda em matéria de pescas e agricultura.
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https://www.youtube.com/watch?v=os8DCjDJrMM
O seu papel mais relevante foi certamente na reconstrução de Lisboa, depois do devastador terramoto de 1755, sendo-lhe atribuída (falsamente) a célebre frase : “Devemos enterrar os mortos e cuidar dos vivos”.

Reformou a educação e a universidade, retirando-a das mãos dos Jesuítas, que vieram a ser seus inimigos declarados.

Governando com mão de ferro, cedo arregimentou um exército de opositores, onde se encontravam os Jesuítas e a alta nobreza. Esta desprezava-o por ser da baixa nobreza, considerando-o um arrivista prepotente, e Pombal desprezava-os por considerá-los uns inúteis que viviam das honrarias do passado e em nada contribuíam para o progresso do país.

Inevitavelmente, tudo acabou mal para alguns membros da alta nobreza – o duque de Aveiro (parente afastado da família real, descendente de D.João II) e a família dos marqueses de Távora, a que pertencia a última amante do Rei, acusados, num processo tenebroso e pouco fiável, de estarem por trás do atentado que D.José sofreu quando regressava de um encontro com a marquesa-nova de Távora.

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O Rei ficou apenas ferido num braço e não apareceu na corte durante algumas semanas, não se mostrando sequer à Rainha.
Os rumores foram circulando. Ao mesmo tempo, Pombal ia reunindo provas contra o envolvimento do duque de Aveiro e da família dos marqueses de Távora.
Estes dois encabeçavam a lista dos opositores a Pombal.
O marquês de Távora (jus uxoris) e conde Alvor tinha sido vice-rei na Índia e julgava que não tinha sido justamente recompensado pelo Rei.
Apesar disso, nunca ficou provado o envolvimento das duas famílias no atentado, nem que o mesmo visava a pessoa do Rei. Falava-se que o alvo poderia ser o capitão Pedro Teixeira, assessor (e facilitador das relações ilícitas do Rei).

Para Pombal, a suspeita bastou para organizar o processo.
O Duque de Aveiro e a sua família foram presos, tal como a família Távora e muitos que lhe estavam ligados.
O Duque e toda a família Távora foram torturados, espancados, executados e queimados publicamente, num acto de propaganda e intimidação interna, mas que horrorizou e escandalizou a Europa civilizada.

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a marquesa-velha de Távora

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a continuar


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 Asunto: Re: Carlota Joaquina de Bourbon
NotaPublicado: 18 Abr 2019 20:47 
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Registrado: 31 Mar 2008 13:17
Mensajes: 5366
Josë eu realmente gosto do tema que você está desenvolvendo; Você me deixa con sede de saber mais.


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 Asunto: Re: Carlota Joaquina de Bourbon
NotaPublicado: 21 Abr 2019 02:33 
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Registrado: 19 Feb 2017 20:07
Mensajes: 93
Obrigado.
Espero que o capítulo II esteja à altura das expectativas e contribua para dar a conhecer a Família Real portuguesa e as suas relações com a Família Real espanhola:

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Palácio de Queluz:

Queluz era uma pequena quinta a pouca distância de Lisboa, que pertencia à Casa do Infantado, conjunto de propriedades que pertenciam aos filhos segundos dos Reis.

A Casa do Infantado foi criada por D.João IV a favor do filho, o futuro D.Pedro II, que haveria de suceder ao irmão, o infeliz D.Afonso VI.

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D.João IV

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D.Pedro II

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D.Afonso VI

O património da Casa do Infantado foi constituído maioritariamente com bens patrimoniais, propriedades e rendimentos confiscados aos apoiantes de Espanha após a Restauração da Independência em 1640, permitindo-lhes «perpetuar e dilatar o mais que puder o sangue e família real».

Curiosamente, todos os senhores da Casa do Infantado, supostamente filhos segundos, vieram a ser reis de Portugal com uma única excepção:

D.Pedro II, filho de D.João IV
D.Francisco, a excepção, filho de D.Pedro II, príncipe despótico que, à semelhança do que o Pai fizera, quis tomar o trono (e a mulher) do irmão D.João V

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D.Pedro III, filho de D.João V
D.João VI, filho de D.Pedro III e D.Maria I
D.Miguel I, filho de D.João VI foi o último senhor da Casa do Infantado, tendo esta sido extinta em 1834.

A Quinta de Queluz pertencera ao 2º marquês de Castelo Rodrigo, D.Manuel de Moura Corte-Real (1590-1651), grande de Espanha em 1621.

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Filho de D.Cristóvão de Moura, o valido de Felipe II e seu principal agente em Portugal na crise dinástica que precedeu o “take over” sobre Portugal em 1580, o 2º marquês não reconheceu a realeza de D.João IV, permanecendo em Madrid onde foi figura de relevo na corte de Felipe IV, tendo sido embaixador espanhol em Roma e Viena, governador dos Países Baixos espanhóis e acabando a carreira como mordomo-mor do Rei.
Os seus bens em Portugal integraram o património da Casa do Infantado.

Na Quinta de Queluz havia um pequeno pavilhão de caça que o Infante D.Pedro deitou abaixo para construir uma residência de Verão, em estilo rococó.

Não imaginava que estava a construir um dos mais belos palácios de Portugal, e ligado de forma indelével à história de Portugal.

Queluz é considerado o Versailles português, modelo à escala reduzida e humana do grande palácio de Luis XIV.

https://portugalvirtual.pt/sintra/pt/pa ... queluz.php

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Imagens do espectáculo “A Corte em Queluz – Viagem ao Portugal de Setecentos”.




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A seguir ao terramoto, enquanto o Rei D.José residia em Lisboa, na Real Barraca, palácio de madeira que mandou construir após o terramoto, por recear viver num edifício em pedra, D.Maria e D.Pedro residiam em Queluz.
Alguma nobreza, descontente e indignada pela execução dos Távoras e do duque de Aveiro, reuniu-se em Queluz em torno da herdeira do trono D.Maria e de seu marido, constituindo uma 2ª corte que ia dando algumas alfinetadas em Pombal, mas sem lhe causar grande mossa dado que a polícia política era por demais eficiente e dissuadia grandes manifestações de oposição.

Todavia, irritado com a situação, Pombal congeminou a ideia de alterar a sucessão ao trono.
Portugal nunca tivera uma rainha-reinante, pelo que a situação ideal seria fazer o Príncipe D.José (que tinha sido devidamente doutrinado por Pombal) suceder directamente ao Avô, afastando D.Maria e D.Pedro do trono e mantendo-se Pombal como primeiro-ministro e tutor do príncipe, ainda de menor idade.

Tanto D.Maria, como a Mãe, Mariana Victoria, opuseram-se tenazmente a esta ideia e, juntamente com a alta nobreza, que temia que uma sucessão avô-neto faria perdurar no poder o odiado Pombal, conseguiram que o Pai não aprovasse a ideia do Ministro.

Mas Pombal tinha ido mais longe.
Descontente com o “abraço sufocante” providenciado pela Espanha, que tinha na Rainha Mariana Victoria a sua figura proeminente, Pombal tentou uma aproximação com França, que aliviasse a preponderância da influência espanhola.

Uma aproximação destas geralmente tinha sempre a mesma consequência. Era selado com um casamento entre as casas reais.
O alvo pretendido era Mme Elisabeth (1764-94), a neta mais nova de Luis XV, irmã dos futuros Luis XVI, Luis XVIII e Carlos X.
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Elisabeth não se mostrou adversa à proposta, mas, sendo muito ligada ao irmão Luis XVI, terá ficado aliviada quando as negociações não chegaram ao resultado pretendido.
Tendo tido a oportunidade de abandonar França quando da Revolução, com os irmãos os condes da Provença e de Artois, decidiu acompanhar a sorte do irmão, da cunhada e dos sobrinhos, tendo partilhado o seu destino, sendo encarcerada e guilhotinada em 1794.

Voltando a D.Mariana Victoria, ela suspeitava que algo se andava a negociar visando o casamento do neto, mas não conseguiu obter qualquer informação do Rei ou de Pombal.
A Rainha “encurralou” então o Secretário de Estado-Adjunto de Pombal, José de Seabra da Silva, que, sem o poder e a habilidade de Pombal, se desbocou e revelou todo o plano francês.
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Quando o Rei e Pombal souberam que a Rainha descobrira o plano secreto, o pobre secretário foi exilado, primeiro para o Brasil, depois, para Angola, só regressando a Portugal após a morte do Rei e a queda de Pombal em 1777.

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Mariana Victoria empenhou-se em combater o plano francês com toda a sua energia.
Afinal, ela ainda não esquecido a humilhação de ter sido rejeitada como noiva de Luis XV e recambiada para Madrid.
Em Espanha não havia qualquer princesa em idade casadoira, pelo que a única hipótese era recorrer “à prata da casa” e apressar o casamento da filha mais nova D.Maria Francisca Benedita com o neto, D.José, Príncipe do Brasil.

A Rainha aproveitou bem o facto de o Rei ter caído doente e a ter nomeado como Regente.
Opositora declarada de Pombal, uma das primeiras medidas da Regente foi impedir o acesso do Primeiro-Ministro à cabeceira do Rei, obrigando-o a despachar apenas com ela.
Afastado Pombal, Mariana Victoria conseguiu que D.José I aprovasse o casamento entre o neto e a sobrinha o que veio a acontecer 3 dias antes da morte do Rei, defraudando as intenções do ministro !

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D.José Príncipe do Brasil

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D.Maria Francisca Benedita

Assim, o príncipe D.José (1761-88), por indicação expressa do avô, casou em 1777, ainda com 15 anos, com sua tia D.Maria Francisca Benedita.
O príncipe era um jovem de talento, muito instruído, muito versado e entusiasta pelas coisas militares. O povo estimava-o pelo seu carácter nobre e suas boas qualidades. Desde a mais tenra infância que o príncipe D. José sentia decidida e terna simpatia por sua tia, simpatia que mais tarde se transformou em intenso amor.

D.Maria Francisca Benedita Ana Isabel Antónia Lourença Inácia Teresa Gertrudes Rita Rosa (1746-1829), irmã mais nova da sua mãe, mas quinze anos mais velha que o príncipe !
Princesa muito ilustrada, tal como as irmãs, distinguiu-se na música e na pintura. Falava correctamente francês, inglês, espanhol e italiano. Era a mais bela das irmãs.

Esteve projectado o seu casamento com o Imperador José II de Áustria (1741-90)
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- estava mesmo destinada a casar com um José ! - que, em 1763, enviuvara de Isabel de Parma.
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Mas sua Mãe, a imperatriz Maria Teresa, opôs-se e, por razões de estado, obrigou-o a casar com Maria Josefa da Baviera, princesa que José II abominava e com quem não fazia vida de casado.
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Depois da morte da Maria Josefa em 1767, José II, apesar de não ter descendentes, não voltou a casar.
Nota curiosa, José II teria mostrado interesse em casar com Maria Luisa de Parma, irmã da sua bem-amada Isabel.
Livrou-se de boa :)) !

D. Maria Francisca Benedita, tal como sua irmã imediata, D.Maria Doroteia, foram sugeridas por sua Mãe como possíveis noivas para o tio Carlos III, depois deste ter enviuvado, no sentido de reforçar as relações entre os dois países.
Carlos III recusou as propostas e manteve-se fiel à memória de Maria Amália de Saxe .
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Carlos III terá até repreendido a irmã pela sua insistência para que casasse segunda vez !

Mau início de casamento. Muito doente, o Rei morreu 3 dias após o casamento da filha com o neto, suspendendo-se as festividades.
D.Maria Francisca Benedita era a mais liberal das irmãs.
Em memória de seu marido, que amava profundamente, e dado o interesse deste pelo exército, fundou o Asilo para os Militares Inválidos de Runa, que dotou generosamente.

Já viúva, embarcou com a Família Real para o Brasil, com as irmãs e sobrinhos.
No Rio de Janeiro manteve uma vida discreta, acompanhando a Rainha sua irmã, cada vez mais alienada.
Quando a FR regressa a Portugal, empenha-se em acabar o Asilo de Runa, parado por falta de verbas e de homens, recrutados para o exército durante as invasões francesas.
No seu testamento, deixou a maior parte dos seus bens e fortuna para a manutenção do asilo.
Morreu aos 83 anos e foi enterrada junto do marido no Panteão de S.Vicente de Fora em Lisboa.

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Quarto de D.Maria Francisca Benedita em Queluz.


O casamento foi feliz, apenas ensombrado pela falta de um herdeiro, tendo D.Maria Francisca sofrido dois abortos espontâneos em 1781 e 1786.
Problemas de endogamia com duas relações seguidas entre tios e sobrinhos.

A falta de um herdeiro dos Príncipes do Brasil veio colocar o filho segundo, o Infante D.João, sob as luzes da ribalta.

Pouco se sabe sobre a infância do infante D.João, a não ser que teve o mesmo plano de educação do irmão, sendo mais apagado e introvertido que D.José, sobre quem recaiam todas as atenções e esperanças da família e do país.

Constatada a infertilidade dos príncipes do Brasil, D.Maria I começou a pensar em casar D.João a fim de providenciar o necessário herdeiro.

Mme Elisabeth de França voltou a ser considerada, mas, apesar de D.José e D.Maria Benedita não terem filhos, eles eram o casal herdeiro da coroa e D.João apenas o filho segundo.
França considerou o casamento com um filho segundo um desprestígio para a princesa e as negociações não avançaram.

Nessa altura, Portugal e Espanha andavam envolvidas numa guerra de fronteiras na América do Sul, ambas reclamando a colónia do Sacramento (equivalente ao Uruguai) e direitos de navegação no Rio da Prata.

Para selar a paz, nada melhor que um casamento principesco, visando reforçar os laços entre as duas nações.

Mas, curiosamente (ou não !) Carlota Joaquina - estamos a chegar à personagem central deste tema - não foi a primeira opção devido à sua pouca idade.

D.Maria I propôs ao tio Carlos III duas princesas da família do rei :

1. uma sua neta Maria Teresa de Nápoles (1772-1807), filha de Fernando I de Nápoles e Maria Carolina de Áustria, que em 1790 viria a casar com o imperador Francisco I de Áustria.

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2. uma sobrinha-neta de Carlos III, Carolina de Parma (1770-1804), filha de Fernando I de Parma e de Maria Amália de Áustria que casaria em 1792 com o príncipe-herdeiro Maximiliano da Saxónia (1759-1838)

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Nenhum destes casamentos se veio a realizar por razões desconhecidas.

Espanha tinha uma única infanta disponível, Carlota Joaquina, mas apenas com 10 anos.
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Portugal, por sua vez, tinha uma infanta disponível também, Mariana Victoria, então com 16 anos, cujo casamento foi acordado com o tio de Carlota Joaquina, o Infante Gabriel (1752-88), filho predilecto de Carlos III, sendo celebrado o Tratado de Madrid, que definiu a questão das fronteiras, e reeditou uma nova “troca de princesas”, à semelhança da de D.Bárbara de Bragança/D.Mariana Victoria de Bourbon, duas gerações antes.

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O casamento ocorreu por procuração em Madrid, sendo D.João representado pelo pai da noiva, Carlos (IV) então príncipe de Astúrias, seguindo-se um sumptuoso banquete para mais de 2000 convidados.

Finalizada a cerimónia, começou a preparar-se a viagem da princesa que seria recebida pela corte portuguesa em Vila Viçosa no palácio dos duques de Bragança no início de Maio de 1785, onde receberam as bênçãos nupciais na capela do Palácio, repetidas mais tarde em Lisboa.

Ao mesmo tempo, D.Mariana Victoria partia para Espanha ao encontro do marido D.Gabriel.


Palácio de Vila Viçosa :

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https://www.youtube.com/watch?v=UAeATEkiOTI

Após a cerimónia, a família regressou à capital, para apresentação da jovem princesa, seguindo pouco depois para Queluz, palácio onde a corte se mantinha a maior parte do ano, depois de o velho palácio da Ribeira junto ao rio Tejo ter sido devastado no terramoto, a Real Barraca de madeira de D.José ter sido consumida por um incêndio e ainda não se ter iniciado a construção do palácio da Ajuda.

Em Queluz, Carlota Joaquina revelou-se um verdadeiro terror para as damas da corte e outras serviçais.
Era mal-criada, caprichosa, intriguista e mentirosa e ninguém tinha mão nela, a não ser a Rainha que a amava verdadeiramente e desculpava todos estes comportamentos, atribuindo-os a ter sido separada dos pais e da família com tão pouca idade.

Dada a diferença de idade dos noivos, Carlota Joaquina com 10 anos, D.João com 18, houve uma longa espera até o casamento poder ser consumado.
A esse propósito, escreveu D.João :
"Cá há de chegar o tempo em que eu hei de brincar muito com a infanta. Se fôr por este andar julgo que nem daqui a seis anos. Bem pouco mais crescida está de que quando veio". De facto D.João teve de esperar até o dia 5 de Abril de 1790 para consumar finalmente o casamento.

E mais três anos até nascer o primeiro rebento que, desafortunadamente, não foi o tão esperado filho, mas uma filha, D.Maria Teresa em 29.04.1793.

Em 11.09.1788 morre o Príncipe do Brasil D.José, vítima de varíola, o que promoveu D.João e Carlota Joaquina a Príncipes do Brasil e herdeiros da Coroa.

D.José era um príncipe esclarecido e alinhado com os ideais progressistas do Iluminismo, próximo do anti-clericalismo de Pombal, enquanto D.João se mostrava mais favorável ao absolutismo régio e era de uma religiosidade pronunciada, assistindo a várias missas por dia.

Ambiente difícil de suportar para a voluntariosa e hiper-activa Carlota Joaquina, que preferia jogos, bailes e andar a cavalo.

O ano de 1788 foi um annus horribilis para D.Maria I, que já tinha perdido a Mãe em 1781, e o marido pouco antes, em 1786.

Em 11.09.1788 morre o filho D.José.
Em 2.11.1788 morre a filha D.Mariana Victoria, também vítima de varíola e complicações do parto do filho Carlos.
Em 9.11.1788 morre o neto Carlos, recém-nascido, filho de Mariana Victoria e Gabriel, que nascera a 28.10
Em 23.11.1788 morre o genro Infante Gabriel, casado com Mariana Victoria
Em 29.11.1788 morre Frei Inácio de S.Caetano, arcebispo de Tessalónica e confessor da Rainha
Em 14.12.1788 morre o tio Carlos III de Espanha, com quem D.Maria tinha excelentes relações

Esta sucessão de mortes perturbou enormemente o espírito atormentado da Rainha.

Para mais, no ano seguinte estala a revolução francesa – 14.07.1789, a que se segue a prisão e posterior execução de Luis XVI e Maria Antonieta durante o período do Terror em França – 1793-94.

Tudo isto contribui para o desequilíbrio mental da Rainha, cujos estados de melancolia já se faziam sentir há muito.

Se o arcebispo de Tessalónica
Imagen era um homem sensato que conseguia apaziguar o estado da Rainha, o seu sucessor como confessor e Inquisidor-mór foi um fanático fundamentalista, o bispo do Algarve, D. José Maria de Melo, exaltado e destituído de bom senso, que não fazia senão agravar o estado de espírito da rainha, verberando-lhe o crime que cometia em não reabilitar os Távoras, e em não chamar os jesuítas expulsos por Pombal, e amedrontando a Rainha com o facto de que, ao não remediar os actos do Pai, este pereceria para todo o sempre no Inferno.

D.Maria I vivia no dilema entre achar que deveria reabilitar essa família, e a afronta que seria em fazê-lo, por um lado, por contrariar a vontade do Pai, por outro, por ultrajar a memória da Mãe, já que D.José mantinha uma relação extra-conjugal com uma senhora da família Távora.

D.Maria I começou a ter visões do Pai numa pira de fogo e convenceu-se de que o Rei efectivamente teria ido para o Inferno e esse seria o seu destino também, tendo crises cada vez mais frequentes e graves.

O seu estado de saúde agravou-se e hoje considera-se que terá sofrido de porphyria variegata, a mesma doença de que padeceu o rei Jorge III de Inglaterra, seu contemporâneo.

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D.João convidou o médico pessoal do rei inglês, Francis Willis, para vir a Lisboa observar a Rainha, tendo-lhe pago a principesca soma que, ao câmbio de hoje, se situaria em um milhão de euros :shock: :shock: :shock: !!!, acrescida de passagens de navio, alojamento no palácio real e criadagem e carruagem.
Willis acabou por partir pouco depois, descontente com a Corte que recusou que a Rainha fosse transferida para Inglaterra, como ele pretendia, mas com o bolso bem recheado.

Com o agravamento do estado mental de D.Maria I, em 1792 o príncipe D.João vê-se à frente da governação em nome da Rainha, posição que determina uma subida na escala de Carlota Joaquina que quis passar a ter um papel mais activo.
ó em 1799 passou o infante D.João a utilizar o título de Príncipe-Regente e a governar directamente o País.

a continuar


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 Asunto: Re: Carlota Joaquina de Bourbon
NotaPublicado: 04 May 2019 17:39 
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Com o agravamento do estado mental de D.Maria I, em 1792 o príncipe D.João vê-se à frente da governação em nome da Rainha, posição que determina uma subida na escala de Carlota Joaquina.
Só em 1799 passou o infante D.João a utilizar o título de Príncipe-Regente e a governar directamente o País.

Nestes 14 anos, a relação entre D.João e Carlota Joaquina foi piorando cada vez mais.
Carlota Joaquina acusava o marido de ser de fraca índole e pouca inteligência e tudo fez para conseguir interná-lo, acusando-o de sofrer do mesmo mal que a Rainha, pretendendo tomar ela as rédeas da governação ou, em alternativa, ser nomeada em nome do filho D.Pedro .

D.João, que detestava confusões, foi ignorando todos estes ataques e conspirações em que Carlota Joaquina estava declaradamente implicada, até que, em 1805 a situação se agravou de tal forma que o casal se separou.
Para a descoberta desta conspiração teve papel preponderante Francisco José Lobato, valido do Príncipe-Regente, o que lhe valeu o ódio profundo de Carlota Joaquina que, um dia, no Rio de Janeiro, lhe haveria de dar um tiro quando este saía de uma reunião com D.João.
Francisco Lobato veio a ter um filho ilegítimo com uma criada, o célebre Chalaça amigo, companheiro de farras e escapadas nocturnas e confidente de D.Pedro, filho de D.João.
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Francisco Lobato e o filho Chalaça

O príncipe não quis causar um escândalo público que deveria ter culminado com a prisão da mulher por crime de lesa-majestade, mas confinou-a ao palácio de Queluz enquanto ele se mudou para o Palácio de Mafra.
Foram ainda exilados ou presos todos os conspiradores afectos à princesa.
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Mafra, o convento-palácio mandado construir por D.João V no cumprimento do voto feito para que lhe fosse concedido um herdeiro – por sinal, o primeiro filho de D.João V e D.Maria Ana de Áustria foi … uma filha, D.Maria Bárbara de Bragança, que veio a ser rainha de Espanha.

Em Mafra encontra-se o mais longo corredor de algum palácio real. Com 232 metros de comprimento, o Corredor da Fachada liga os aposentos do Rei no Torreão Norte, aos aposentos da Rainha no Torreão Sul.
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O Corredor da Fachada


Desde 1805, D.João e Carlota Joaquina deixaram de coabitar e fazer vida de casal, o que muito contribuiu para a fama de libertina da princesa, pintada como uma verdadeira ninfomaníaca, à semelhança da Mãe.

Entretanto, na Europa, o panorama é tão negro como a vida conjugal deste casal.

Após a execução de Luis XVI, em 15.06.1793, Portugal e Espanha juntaram-se num tratado ofensivo contra a França revolucionária.
Em 26.09.1793, Portugal celebrou outro tratado idêntico com a Inglaterra de auxílio mútuo, o que levou portugueses e espanhóis a combater na desastrosa Campanha do Rossilhão, que, tendo começado vitoriosa, acabou em fracasso.
Portugal viu-se numa delicada situação diplomática pois não poderia celebrar um tratado de paz com a França o que seria uma afronta à aliada Inglaterra.

Aqui vislumbra-se pela primeira vez a visão e aguçada capacidade política de D.João que opta por uma situação de neutralidade, num difícil equilíbrio entre a França e a Inglaterra.

Para mais, a Espanha, também derrotada pela França, pela mão de Godoy, assinou um tratado separado com a França, a Paz de Basileia, abandonando a aliança com Portugal.

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Controlada e manipulada a Espanha e considerando a Inglaterra demasiado poderosa para ser atacada, a vingança da França recaiu sobre Portugal, tendo Napoleão obrigado a Espanha a declarar um ultimato a Portugal através do qual este se obrigava a fechar os seus portos aos navios ingleses ou seria invadido por um exército franco-espanhol.

Dada a natureza da aliança luso-inglesa (que datava do século XIV) e a impossibilidade de afrontar a sua marinha, que de imediato conquistaria as colónias portuguesas, D.João foi empatando, avançando um passo e recuando dois, numa política de fio da navalha, procurando ganhar tempo, o que realmente conseguiu entre 1795 e 1801.

(Para alguém constantemente acusado de indeciso e irresoluto, D.João revelou-se um exímio jogador no xadrez europeu.)
Por isso não se estranha que , nas suas memórias, no exílio de Santa Helena, Napoleão lhe tivesse prestado justiça ao referir : “Foi o único que me enganou”.)
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Em 1801, um exército franco-espanhol invadiu Portugal numa breve escaramuça que ficou conhecida como Guerra das Laranjas onde a nossa aliada Inglaterra nada fez .
Foi uma campanha de curta duração entre 20.05 e 6.06, que terminou com a conquista de Olivença, ratificada pelo Tratado de Badajoz.
O nome da guerra ficou a dever-se ao gesto galanteador de Godoy para com Maria Luisa a quem terá entregue um ramo de laranjas colhido em Portugal.
O tratado de Viena de 1817 determinou que Olivença fosse devolvida a Portugal, mas, até hoje :evil:


Entre 1801 e 1806, viveu-se uma “paz podre” na Península Ibérica, que só foi quebrada Napoleão decretou o Bloqueio Continental à Inglaterra, devendo todas as nações fechar os seus portos aos navios ingleses.
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Napoleão já tinha invadido muitos países e vencido, humilhado ou destituído os seus monarcas.
Tinha um espinho cravado no seu orgulho – não conseguia dominar a Grã Bretanha.
Sendo aquela nação a Rainha dos Mares, a única hipótese de derrotar era fechando todos os portos do continente à marinha britânica.

Bonaparte decretou o Bloqueio Continental, que proibia todas as nações de manter relações comerciais com a Inglaterra, maior potência industrial da época e principal rival política da França. Se o país não cumprisse sua determinação, seria invadido e seu governante deposto.
Mas Portugal tinha uma estreita aliança com a Inglaterra e mantinha certa dependência dos produtos ingleses, pelo que não tinha como acatar esse dictat de Napoleão !
Uma vez mais, D.João foi empatando enquanto pôde, anuindo e recuando até que a situação se tornou incomportável.

Confrontado com a recusa disfarçada de Portugal em lhe obedecer, Napoleão gizou um plano para castigar esses insubmissos que o desafiavam, servindo-se, para tal, da mais maleável Espanha.

Em 1807, pelo Tratado de Fontainebleau, Espanha e França, secretamente procederam à divisão do reino de Portugal, nos seguintes termos:
Nós Napoleão, pela graça de Deus e da Constituição, Imperador dos Franceses, Rei da Itália e Protector da Confederação do Reno, tendo visto e examinado o tratado, concluído, arranjado e assinado em Fontainebleau, a 27 de Outubro de 1807, pelo general-de-divisão Michel Duroc, Grão-Marechal do Nosso Palácio, grão-cavaleiro da Legião de Honra, etc., em virtude de plenos poderes conferidos por nós para este fim, com D. Eugenio Izquierdo de Ribera y Lezaun, Conselheiro Honorário de Estado e da Guerra de Sua Majestade o Rei de Espanha, o qual também estava munido com plenos poderes pelo seu soberano, o qual tratado é na forma seguinte:
Sua Majestade o Imperador dos Franceses, Rei da Itália e Protector da Confederação do Reno, e Sua Majestade Católica o Rei da Espanha, desejando regular por comum com sentimento o interesse dos dois estados, e determinar a futura condição de Portugal, de maneira que seja consistente com a boa política de ambos os países; tem nomeado para seus ministros plenipotenciários, a saber: Sua Majestade o Imperador dos Franceses, Rei da Itália e Protector da Confederação do Reno, ao general de divisão Michel Duroc, Grão-Marechal do Palácio, grão-cavaleiro da Legião de Honra; e Sua Majestade Católica o Rei da Espanha, a D. Eugénio Izquierdo de Ribera y Lezaun, seu Conselheiro Honorário de Estado e da Guerra, os quais ministros, havendo ambos mutuamente trocado os seus plenos poderes, concordaram no seguinte:
Artigo 1. — A província de Entre Douro e Minho, com a cidade do Porto, se trespassará em plena propriedade e soberania para Sua Majestade o Rei da Etrúria, com o título de Rei da Lusitânia Setentrional.
Artigo 2. — A província do Alentejo e o reino dos Algarves se trespassarão em plena propriedade e soberania para o Príncipe da Paz, para serem por ele gozados, debaixo do título de Príncipe dos Algarves.
Artigo 3. — As províncias da Beira, Trás-os-Montes e Estremadura portuguesa, ficarão por dispor até que haja uma paz, e então se disporá delas segundo as circunstâncias, e segundo o que se concordar entre as duas partes contratantes.
Artigo 4. — O Reino da Lusitânia Setentrional será tido pelos descendentes de Sua Majestade o Rei da Etrúria, hereditariamente e conforme as leis da sucessão, estabelecidas na família que ocupa o trono da Espanha.
Artigo 5. — O Principado dos Algarves será tido pelos descendentes do Príncipe da Paz hereditariamente e conforme as leis de sucessão estabelecidas na família que ocupa o trono da Espanha.
Artigo 6. — Se não houver descendentes ou herdeiros legítimos do Rei da Lusitânia Setentrional ou do Príncipe dos Algarves, se disporá por investidura do Rei de Espanha, de maneira que nunca se unirão debaixo de uma só cabeça, nem se anexarão à coroa de Espanha.
Artigo 7. — O Reino da Lusitânia Setentrional e o Principado dos Algarves reconhecerão como protector Sua Majestade Católica o Rei de Espanha, e em nenhum caso os soberanos destes países farão paz ou guerra sem o seu consentimento.
Artigo 8. — No caso de que as províncias da Beira, Trás-os-Montes e Estremadura portuguesa, tidas em sequestro, se devolvam na paz geral à Casa de Bragança, em troca de Gibraltar, Trindade e outras colónias, que os ingleses têm conquistado à Espanha e seus aliados, o novo soberano destas províncias terá, relativamente a Sua Majestade Católica o Rei de Espanha, as mesmas obrigações que tem o Rei da Lusitânia Setentrional e o Príncipe dos Algarves, e as terá debaixo das mesmas condições.
Artigo 9. — Sua Majestade o Rei da Etrúria, cede o Reino da Etrúria em plena propriedade e soberania a Sua Majestade o Imperador dos Franceses e Rei da Itália.
Artigo 10. — Assim que as províncias de Portugal forem definitivamente ocupadas, os diferentes príncipes que as devem possuir nomearão mutuamente comissários para verificar os seus limites naturais.
Artigo 11. — Sua Majestade o Imperador dos Franceses e Rei da Itália, garante a Sua Majestade Católica o Rei de Espanha, a posse dos seus domínios no continente da Europa, situados ao sul dos Pirenéus.
Artigo 12. — Sua Majestade o Imperador dos Franceses e Rei da Itália obriga-se a reconhecer a Sua Majestade Católica o Rei da Espanha como Imperador das Duas Américas, quando tudo estiver pronto para Sua Majestade assumir este título, que pode ser, ou ao tempo da paz geral, ou o mais tardar três anos depois daquela época.
Artigo 13. — As duas altas partes contratantes concordam mutuamente em uma igual divisão das ilhas, colónias e outras possessões ultramarinas de Portugal.
Artigo 14. — O presente tratado será tido em segredo. Será ratificado e trocado em Madrid dentro de vinte dias, o mais tardar, da data da sua assinatura.
— Dado em Fontainebleau, aos 27 de Outubro de 1807. = (Assinaturas) Duroc — E. lzquierdo.
— Aprovado no dia 29 de Outubro com selos por Napoleão, o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Champagny e o Secretário de Estado, Maret.


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Foi ainda celebrado uma Convenção Anexa ao Tratado de Fontainebleau, dispondo :
Napoleão, pela graça de Deus e da Constituição, Imperador dos Franceses, Rei da Itália e Protector da Confederação do Reno; tendo visto e examinado a convenção concluída, arranjada e assinada em Fontainebleau, aos 27 de Outubro de 1807, pelo general de divisão Michel Duroc, Grão-Marechal do Nosso Palácio, grão-cordão da Legião de Honra, etc., etc., em virtude dos plenos poderes que nós lhe conferimos, de uma parte; e da outra parte D. Eugenio Izquierdo de Ribera y Lezaun, Conselheiro Honorário de Estado e da Guerra de Sua Majestade o Rei de Espanha, igualmente munido com plenos poderes pelo seu soberano, o teor da qual convenção era o seguinte:
Sua Majestade o Imperador dos Franceses, Rei da Itália e Protector da Confederação do Reno, e Sua Majestade o Rei de Espanha, desejando entrar em um acordo relativamente à ocupação e conquista de Portugal, conforme as estipulações do Tratado assinado na data de hoje, têm nomeado, a saber: Sua Majestade o Imperador dos Franceses, Rei da Itália e Protector da Confederação do Reno, ao general de divisão Michel Duroc, Grão-Marechal do Seu Palácio, grão-cordão da Legião de Honra, e Sua Majestade Católica o Rei de Espanha, D. Eugénio Izquierdo de Ribera y Lezaun, seu Conselheiro de Estado Honorário e da Guerra, os quais, depois de haverem mutuamente trocado os seus plenos poderes, concordaram nos seguintes artigos:
Artigo 1 — Um corpo de tropas imperiais francesas de 25 000 homens de infantaria e 3 000 de cavalaria entrará em Espanha e marchará directamente para Lisboa; unir-se-ão a estas um corpo de 8 000 homens de infantaria espanhola, e 3 000 de cavalaria, com 30 peças de artilharia.
Artigo 2 — Ao mesmo tempo uma divisão de tropas espanholas, consistindo em 10 000 homens, tomará posse da província de Entre Douro e Minho e da cidade do Porto; e outra divisão de 6 000 homens, também de tropas espanholas, tomará posse do Alentejo e do reino dos Algarves.
Artigo 3 — As tropas francesas serão sustentadas e mantidas por Espanha, e o seu pagamento providenciado por França, durante o tempo empregado na sua marcha por Espanha.
Artigo 4 — Ao momento em que as tropas combinadas entrarem em Portugal, o governo e administração das províncias da Beira, Trás-os-Montes e Estremadura portuguesa (que devem ficar em estado de sequestro), serão investidos no general comandante das tropas francesas, e as contribuições impostas nas mesmas províncias serão em benefício da França. As províncias, que devem formar o Reino da Lusitânia Setentrional e o Principado dos Algarves, serão administradas e governadas pelos generais comandantes das divisões espanholas que entrarem nas mesmas, e as contribuições impostas nelas serão a benefício da Espanha.
Artigo 5 — O corpo central estará debaixo das ordens do comandante das tropas francesas, a quem também obedecerão as tropas espanholas unidas a este exército. Contudo se o rei da Espanha, ou o Príncipe da Paz, julgar conveniente ir ao exército, as tropas francesas com o general que as comandar, ficarão sujeitas as suas ordens.
Artigo 6 — Outro corpo de 40 000 homens de tropas francesas se ajuntará em Baiona, cerca dos 20 de Novembro próximo futuro ao mais tardar, estando pronto para entrar na Espanha, para o fim de marchar para Portugal, no caso em que os ingleses lá mandassem reforços, ou ameaçassem com um ataque. Este corpo adicional porém não entrará em Espanha até que as duas altas partes contratantes tenham concordado sobre este ponto.
Artigo 7 — A presente convenção será ratificada, e as ratificações trocadas ao mesmo tempo que o tratado desta data.
— Dado em Fontainebleau, aos 27 de Outubro de 1807. = Duroc — E. lzquierdo.
— Aprovado no dia 29 de Outubro com selos por Napoleão, o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Champagny e o Secretário de Estado, Maret.


Por força deste acordo secreto, Portugal vê-se subitamente invadindo por um exército franco-espanhol muito superior às forças nacionais.

Nesse contexto foi activado o plano de transferência da família real para o Brasil, plano que muitos consideram ter sido apressadamente idealizado na época, mas que já vinha de há séculos.
Com efeito, houve planos para a retirada da família real para o Brasil desde a crise sucessória de 1580
a. Quando D.António foi aconselhado a partir para Terras de Vera Cruz e lá consolidar um possível regresso.
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b. Após a independência de 1640, quando a França abandonou o apoio a Portugal contra a Espanha, pôs-se a hipótese de D.João IV passar a governar a partir do Rio de Janeiro.
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c. No reinado de D.José, na sequência da ameaça francesa por Portugal não ter aderido ao Pacto de Família contra a Inglaterra.
d. Em 1801 e 1803 durante as crises luso-espanholas.

O plano inicial era fazer seguir para o Brasil apenas o príncipe da Beira, D.Pedro e as infantas, ficando em Portugal D.João, Carlota Joaquina e D.Miguel.
No entanto, quando se soube da prisão em Espanha do príncipe das Astúrias Fernando (VII), começou a admitir-se que toda a família deveria partir.

A 22 de Outubro de 1807 era assinada uma convenção secreta entre o Príncipe Regente D. João e o governo britânico e que estabelecia e reconhecia a transferência da sede da monarquia portuguesa para o Brasil. Estava ainda prevista a ocupação da ilha da Madeira pelas tropas inglesas, e o compromisso de ser celebrado um tratado de comércio com a Inglaterra, logo após o Governo português se instalar no Brasil, dado que até aí Portugal tinha o monopólio do comércio com aquela colónia.
Com a saída para o Brasil, o príncipe D.João escapava a todas as humilhações sofridas por seus parentes espanhóis e mantinha-se na plenitude dos seus direitos, pretensões e esperanças. De certa forma era como que uma ameaça viva e constante à manutenção da integridade do sistema napoleónico e um espinho nas pretensões do Imperador de, dominando Portugal e os seus portos, facilmente derrotar a velha inimiga, a Inglaterra.


Assinado o tratado de Fontainebleau, foi dada aos representantes diplomáticos portugueses em Paris e Madrid para abandonarem de imediato os seus postos.

Ao contrário do que pensava a dúplice Espanha, o plano francês era semelhante ao que se veio a verificar em Espanha. Capturar a família real e colocar um fantoche em Lisboa, dado que o Tratado de Fontainebleau nunca veio a ser posto em execução, e nem o “Rei da Etrúria” nem Godoy alguma vez tomaram posse dos seus “novos reinos”.

Até ao último momento, D.João não quis acreditar que o sogro Carlos IV pudesse entrar num entendimento com a França napoleónica com o intuito de privar a própria filha, Carlota Joaquina, do trono a que teria direito.

Napoleão tinha planeado ao pormenor a invasão de Portugal.
Não teve em conta que o exército se fosse atrasar, tanto pelas escaramuças verificadas, como pelo cansaço das tropas, que adiaram a chegada a Lisboa por alguns dias.
Confiante que o seu plano seria executado ao milímetro, Napoleão fez publicar ni jornal Moniteur o famoso decreto de 27 de Outubro, pelo qual a Casa de Bragança deixava de reinar em Portugal, “La maison de Bragance a cesse de régner au Portugal”, imaginando que este decreto apenas seria conhecido em Lisboa, depois da entrada do seu exército na capital.

Em virtude do atraso verificado, aquele decreto chegou rapidamente ao conhecimento do governo britânico.
O ministro de Portugal em Londres, D. Domingos de Sousa Coutinho, receando que as suas comunicações atingissem o seu destino tardiamente, já depois da entrada em Lisboa das tropas francesas, expediu um correio extraordinário com um exemplar do Le Moniteur para o Príncipe Regente.

Ao mesmo tempo o governo inglês deu instruções a Sir Sidney Smith, que cruzava com a sua esquadra a embocadura do Tejo, para escoltar a Família Real, no caso de esta decidir retirar-se de Lisboa. Por um feliz acaso, que pareceu um milagre, o correio demorou na sua viagem apenas quatro dias e muito a tempo de salvar o Príncipe e a sua Família da sorte que os esperava.

Anunciada a invasão francesa, iniciaram-se apressadamente os preparativos para a transferência da corte para o Brasil.
Rapidamente e com o auxílio da Inglaterra, a família real no seu conjunto, grande parte da corte e seus servos e demais empregados domésticos, totalizando cerca de 15.000 pessoas embarcaram como puderam e partiram, levando tudo quanto podiam, pois a fama de saqueador do exército francês era bem conhecida.
Em escassos dias, acumularam-se na zona de Belém caixotes e caixotes com tudo o que era possível levar: mobílias requintadas, artefactos religiosos, pinturas a óleo, quadros, baixelas, jóias, objectos de arte e até 19 carruagens, ouro brasileiro e diamantes e vastas provisões de moedas do tesouro real. Também levou uma grande quantidade de documentos do Estado e uma impressora, e tentou carregar os 60 mil volumes da biblioteca da Ajuda
No entanto, nem tudo pôde seguir e muitos caixotes permaneceram no porto, sendo saqueados, destruídos e perdido o seu conteúdo.
Inúmeros caixotes com pratas das igrejas não puderam embarcar e foram confiscados pelos franceses que os roubaram ou fundiram.
Melhor sorte tiveram os 60 mil volumes da Biblioteca que, depois da presença de Junot em Lisboa, conseguiram embarcar para o Brasil.

Um relato da época:
He impossivel descrever o que se passou no Caes de Bellem na occasião do embarque da Real Familia, que sahio de Mafra a toda a preça para embarcar, o caes amontoado de caixas, caixotes, bahus, malas, malotoeus e trinta mil cousas, que muitos ficaram no caes tendo seus donos embarcado. outras foram para bordo e seus donos não poderam hir. Que desordem e confuzão; A rainha sem querer embarcar por forma alguma, o Principe aflito, por este motivo!!! Foi o Laranja, (Francisco Laranja capitão de fragata e patrão mór das galeotas reaes) quem fez que a Rainha embarcase. E então o Principe deo Beijamão às pessoas que alli estavão e entre lagrimas e suspiros começam a embarcar, e não se pode descrever o que aqui se passou

A 27 de Novembro de 1807 a família real embarcou na frota que a havia de conduzir ao Brasil.
As condições atmosféricas não permitiram que a frota partisse e só a 29 os ventos mudaram e D.João ordenou a partida.

De D.João disse o historiador José Acúrsio das Neves : “Queria falar e não podia, queria mover-se e, convulso, não acertava a dar um passo: caminhava sobre um abismo, e apresentava-se à imaginação um futuro tenebroso e tão incerto como o oceano a que ia entregar-se". "Vão pensar que fugimos"


Comandava o exército invasor o General Jean-Andoche Junot que tinha ordens expressas de Napoleão para capturar a família real e impedir a partida que já era conhecida do exército.
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Junot conhecia bem Portugal e a família real pois em 1805 fôra embaixador francês em Lisboa.
Mal soube do embarque “voou” em direcção a Lisboa, chegando à capital no dia 30.11, a tempo de ver ao longe as velas das últimas naus .
Frustrou-se, assim, o plano de Napoleão.
De Lisboa, Junot comunicou o êxito da ocupação da capital referindo en passant a partida da família real.
Se, com jactância, o pequeno corso decretara “La famille de Bragance a cessé de régner”, teve que engolir essa frase e, como consequência, impôs uma regência duríssima para com os que ficaram.

A viagem:
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A viagem foi planeada com algo de impensável nos nossos dias.
No navio-almirante, a nau “Príncipe Real”, seguiam a Rainha D.Maria I, D.João, com o príncipe herdeiro D.Pedro e o sobrinho Infante Pedro Carlos de Borbon y Bragança – ou seja, a Rainha, o Príncipe Regente e o herdeiro do Regente !!!
Há relatos que dizem que também D.Miguel viajava com o Pai, a Avó e o irmão !!!

Noutra nau, seguiam D.Carlota Joaquina, possivelmente D.Miguel e todas as infantas !

Noutra nau ainda, seguiram as irmãs de D.Maria I, D.Maria Ana Josefa e D.Maria Benedita, princesa-viúva do Brasil.

A Rainha D.Maria, que permanecia enclausurada em Queluz, devido à sua alienação mental, foi vista pela primeira vez em muitos anos.
Os contemporâneos dividem-se entre os que lhe atribuíram um lampejo de lucidez que a terá feito dizer ao condutor para não seguir muito depressa para que o povo não pensasse que ia a fugir e (provavelmente a realidade) os que diziam que gritava desvairadamente, pensando que a levavam ao patíbulo e que teria a mesma sorte de Maria Antonieta.


32 barcos de guerra mais cerca de 30 barcos da marinha mercante fizeram-se ao mar numa jornada única sem a certeza de chegarem a bom porto.
Calcula-se que Napoleão tenha desejado várias vezes que tempestades e mares revoltos tivessem impedido a chegada da esquadra ao Brasil !

Após a partida temeu-se o pior uma vez que a esquadra portuguesa, escoltada por navios de guerra ingleses, dispersou-se por causa de uma tempestade, só se vindo a reagrupar a 5 de Dezembro ao largo da ilha da Madeira.

A partir daí, a viagem decorreu sem incidentes e, surpreendentemente, todos os barcos chegaram à costa da Bahia em 18 de Janeiro, aportando em Salvador a 22 de Janeiro. desembarcando a família real a 24 de Janeiro.

Dias antes, a frota encontrara um pequeno bergantim, enviado pelo governador de Pernambuco, para dar as boas vindas à Família Real. Depois de meses a comer carne seca e biscoitos, calcula-se a alegria de D. João e sua comitiva ao avistar, já pereto da costa, o bergantim Três Corações, para mais, com um carregamento de frutas tropicais, como cajus e pitangas, e muitos recipientes com refresco.

Em Salvador foi decretada a Abertura dos Portos às Nações Amigas.
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A família permaneceu mais de um mês em Salvador, tendo aportado no Rio de Janeiro em 8 de Março de 1808.

Uma anedota:
Durante a travessia verificou-se uma epidemia de piolhos na nau onde seguiam D.Carlota Joaquina e as filhas.
Desesperadas, tiveram que rapar as cabeças e desembaraçar-se das perucas e toucados.
Para sobreviverem à humilhação e fealdade e combaterem o escaldante sol equatorial e tropical, a princesa e as infantas, bem como as damas que as acompanhavam e serviam, serviram-se de panos para criarem uns turbantes que lhes escondessem as régias calvícies.
Quando chegaram ao Brasil, as damas locais pensaram que se tratava da última moda na Europa e adoptaram-na de imediato, rapando as cabeças e envolvendo-as em turbantes coloridos :lol: .

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 Asunto: Re: Carlota Joaquina de Bourbon
NotaPublicado: 05 May 2019 20:57 
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 Asunto: Re: Carlota Joaquina de Bourbon
NotaPublicado: 13 May 2019 01:22 
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Carlota Joaquina no Brasil.
O Carlotismo.
As ambições sul-americanas

A chegada da Corte ao Rio de Janeiro causou uma enorme agitação.
Colónia regida a partir do outro lado do Atlântico, o Brasil podia contar pela primeira vez com a presença da Família Real e da Corte com tudo o que isso implicava.
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E nem tudo começou bem :-O !
Para começar, era preciso alojar toda aquela gente –mais de 15.000! - que se fez ao mar, famílias inteiras, com seus criados e bagagens !

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Os membros da família real foram instalados em três prédios no centro da cidade, entre eles o paço do vice-rei Marcos de Noronha e Brito, conde dos Arcos
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o convento das Carmelitas, a Casa da Câmara e a Cadeia. Os demais emigrados espalharam-se pela cidade, em residências confiscadas à população assinaladas com as iniciais "P.R." de "Príncipe-Regente", o que deu origem ao trocadilho "Põe-te na Rua", ou "Prédio Roubado" como se comentava à época.

D. Gabriela, mulher de D. Rodrigo de Sousa Coutinho, ( conde de Linhares e principal artesão da abertura da economia brasileira ) escreveu numa carta que se tinham praticado muitas violências para alojar todos os recém-chegados, «assim grandes como pequenos». Para as pessoas de distinção procuravam-se casas nobres, que eram raras no Rio de Janeiro. «Para alojar uma família, era preciso desalojar 2 ou 3», e os oficiais de Marinha, graças aos privilégios de que usufruíam, ocupavam uma casa à força, para depois a cederem por alto preço. Esta atitude provocou o desagrado dos habitantes, como seria de esperar, chegando ao ponto de suspenderem qualquer tipo de construção por temerem as chamadas «aposentadorias».
Mais tarde, o marquês de Borba, veador da Casa Real, que chegara acompanhado de um filho, veador de D. Carlota Joaquina, e de uma filha, camarista do infante D. Miguel, portanto todos servidores do Paço, queixava-se amargamente do custo da habitação no Rio de Janeiro: «as despesas aqui são imensas, as casas 400$000 réis por ano e é uma barraca, sem terrenos; a carruagem importa em rios de dinheiro, tanto as seges como sustento das bestas, ordenado do boleeiro e moço de tábua, enfim é precisa a maior economia». E exprimia veementemente os votos de regresso a Portugal: «peçam perdão a Deus por mim, e que nos levem deste inferno para esse paraíso da minha Casa» (sad) .

As hostilidades mais ou menos veladas estalaram de imediato entre os recém-chegados, entre os quais se contava a fina-flor da aristocracia portuguesa e os residentes. Os primeiros tinham deixado tudo para trás, excepto a roupa que vestiam na altura da fuga, mas cheios de pergaminhos desprezavam os portugueses residentes, como os senhores de engenho, os mercadores e profissionais liberais.
Os portugueses residentes no Brasil possuíam grandes fortunas feitas às custas da colónia, mas faltava-lhes os títulos e as distinções para adquirirem o prestígio social que tanto almejavam. Com a chegada do rei aoBrasil estavam decididos a comprar as mercês, comendas e títulos que as suas fortunas permitiam.
D. João VI não se fazia rogado a estas pretensões,pois a concessão de benesses a troco de dinheiro representava a principal fonte de rendimento para custear as avultadas despesas da família real e respectiva corte.
A vida social era pouco animada: os jantares, bailes ou reuniões eram raros em casa dos particulares e o primeiro teatro do Rio de Janeiro só foi inaugurado em 1813 com o nome de Teatro São João.
O período mais faustoso decorreu entre os anos de 1817 a 1818, primeiro com a chegada da noiva do príncipe herdeiro D. Pedro, a princesa Leopoldina,filha do imperador austríaco, e em maio de 1818 por ocasião do aniversário e coroação de D. João VI.
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No antigo convento do Carmo, instalaram-se a rainha D. Maria I e suas damas. A Casa da Câmara e Cadeia foram destinadas às criadas.
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D.Carlota Joaquina veio a habitar o Palácio de Botafogo


Uma esperteza :yay: :
Elias António Lopes foi um comerciante e traficante de escravos e, mais tarde, um político luso-brasileiro, natural do Porto
Conhecedor do espírito confiscatório das melhores residências cariocas, o comerciante Elias Lopes teve uma ideia brilhante: Em 1808, ofereceu ao Príncipe D.João o palácio que havia construído na Quinta de São Cristóvão. O palácio, depois chamado de Quinta da Boa Vista, transformou-se na residência oficial do príncipe. Como recompensa, foi agraciado comendador da Ordem Militar de Cristo e nomeado tabelião e escrivão da Vila de Parati.
Em 1810, foi sagrado cavaleiro da Casa Real e agraciado alcaide-mor e senhor perpétuo da Vila de São José del-Rei.
Recebeu ainda uma propriedade, não tão faustosa como a que ofereceu ao Príncipe, mas, com o seu gesto, teve melhor sorte que a maioria dos seus conterrâneos que foram expulsos de suas casas sem qualquer contrapartida.
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Paço de S.Cristóvão onde D.João passou a residir no Rio de Janeiro … longe de Carlota Joaquina.
Estando presentemente a funcionar como Museu Nacional, foi devastado completamente por um incêndio em 2018.


Uma medida tomada logo após a chegada da corte ao Brasil, passou pela declaração de guerra à França, e ocupação da Guiana Francesa em 1809.
Foi revogada a lei que proibia a instalação de indústrias no Brasil, deixando de prevalecer o apoio à agricultura.
A mudança da Corte para o Brasil teve ainda outras consequências, designadamente:
a abertura dos portos às nações amigas em 1808;
a criação da Imprensa Régia e a autorização para o funcionamento de tipografias e a publicação de jornais em 1808;
a fundação do primeiro Banco do Brasil, em 1808;
a criação da Academia Real Militar (1810);
a abertura de algumas escolas, entre as quais duas de Medicina – uma na Bahia e outra no Rio de Janeiro;
a instalação de uma fábrica de pólvora e de indústrias de ferro em Minas Gerais e em São Paulo;
elevação do Estado do Brasil à condição de Reino unido a Portugal e aos Algarves;
a fundação da Academia de Belas Artes;
a criação da Biblioteca Real (1810), do Jardim Botânico (1811) e do Museu Real (1818)

Todas estas actividades desmentem a inacção de que Carlota Joaquina acusava o marido, continuando, no Brasil, a apouca-lo e a conspirar contra ele.
Chegada ao Brasil, a sua primeira medida foi reclamar para si a Coroa de Espanha, invocando que o trono se encontrava vago devido à prisão e abdicação forçada por Napoleão do Pai Carlos IV e do irmão Fernando, príncipe das Astúrias, sendo ela o único membro da família que restava em liberdade.
Naturalmente esta reivindicação não encontrou qualquer eco na Europa.

Falhado este projecto, concebeu a ideia de talhar para si um trono na América do Sul !
Da mesma forma que, durante a ocupação filipina (1580-1640) Portugal considerou que, sendo parte integrante de Espanha, não tinha que respeitar os trâmites e limites do Tratado de Tordesilhas, o gabinete português, alegando um vazio do poder na América do Sul espanhola pôs a hipótese de invadir as regiões fronteiriças com o Brasil, os actuais Argentina, Paraguai e Uruguai.
O projecto foi julgado demasiado ambicioso e, sobretudo, custoso, e ficou em stand by.

Entretanto surgiu um movimento de emancipação no Rio da Prata, e imediatamente Carlota Joaquina se quis apropriar da situação, formando um Partido Carlotista que pudesse agrupar os descontentes e dar-lhe o protagonismo que sempre quis ter.
Estavam lançadas as bases para a “Justa Reclamação” (de Carlota Joaquina para os territórios que considerava seus e da sua família)

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Auxiliada pelo vice-almirante inglês Sydney Smith, e não encontrando oposição do marido, que achava refrescante que a mulher estivesse entretida com intrigas que não o afectassem directamente, foram enviados agentes ao Rio da Prata para avaliarem o êxito do empreendimento.
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O projecto começou por ter o apoio de Manuel Belgrano, político e militar argentino, que tinha participado na defesa de Buenos Aires, capital do Vice-Reino do Rio de la Plata, contra as invasões inglesas de 1806 e 1807 e que defendeu os direitos de Carlota Joaquina ao trono de um independente Reino do Rio da Prata.
A ideia não era propriamente de declararem uma independência “à americama”, como resulta das Memórias de Belgrano:
"Sin que nosotros hubiéramos trabajado para ser independientes, Dios mismo nos presenta la ocasión con los sucesos de 1808 en España y en Bayona. En efecto, avívanse entonces las ideas de libertad e independencia en América, y los americanos empiezan por primera vez a hablar de sus derechos... Entonces fue que, no viendo yo un asomo de que se pensara en constituirnos y sí a los americanos prestando una obediencia injusta a unos hombres que por ningún derecho debían mandarnos, traté de buscar los auspicios de la Infanta Carlota y de formar un partido a su favor, oponiéndose a los yiros de los déspotas que celaban con el mayor anhelo para no perder sus mandos y, lo que es más, para conservar la América dependiente de la España, aunque Napoleón la dominare."
Em 1809, dirigindo-se aos peruanos, escreveu ;
"...Si por desgracia nuestra metrópoli es subyugada, se celebren inmediatamente Cortes, para que, establecida la Regencia al cargo de la Sra. Infanta, Dña. Carlota Joaquina, haya un gobierno que sirva de exemplo a la decadente Europa, y vivamos en tranquilidad y seguridad... sin prestar oídos a los silbidos de la serpiente que quiere induciros a la democracia."
A intenção dos Carlotistas era, assim, estabelecer no Rio da Prata uma monarquia constitucional e com uma ligação à dinastia Borbon.
No meio destas conspirações, esqueceram a “ovelha negra” da família – o irmão Fernando (VII), entretanto reconhecido como Rei pela Grã-Bretanha após a abdicação de Carlos IV, no curto período ente Março e Maio de 1808.
Carlota Joaquina considerava que o legítimo rei era Carlos IV e que este estava incapacitado para exercer as suas funções, pelo que ela se oferecia para se lhe substituir.
Fernando tinha entretanto enviado para a América espanhola proclamações em que se considerava o legítimo herdeiro de Carlos IV, e, como tal, era-lhe devida a lealdade total dos vice-reinos.

Os Carlotistas também não contaram com a oposição da Inglaterra que tinha interesse no desmembramento da América do Sul espanhola e que tinha celebrado diversos contratos comerciais na perspectiva dessa implosão.
Lord Strangford, embaixador inglês no Rio de Janeiro, informou D.João que a Grã Bretanha nunca aceitaria Carlota Joaquina num trono na América do Sul, pelo que o príncipe deveria travar os ímpetos da mulher.
A megalomania de Carlota Joaquina foi ao ponto de propôr a D.João um tratado de amizade e cooperação e “comprar” o apoio do marido oferecendo-lhe a margem direita do Rio da Prata, mas a posição britânica foi determinante.
Novo projecto falhado de Carlota Joaquina.
A partir daqui, manteve-se um pouco alheada das lides políticas, animando-se apenas com o “upgrade” à condição de Rainha-consorte, por morte da sogra D.Maria I em 20.03.1816.

Sofreu uma última humilhação quando em 1816, com a implantação do absolutismo em Europa, o Carlotismo teve uma breve aparição .
Desta vez, porém, Carlota Joaquina não era convidada para encabeçar o movimento, mas os líderes do movimento puseram a hipótese de tomarem o poder e casar com as filhas de D.João e Carlota para se emparentarem com os Bragança e os Borbons.
E assim morreu o sonho de Carlota Joaquina de ser coroada como Rainha reinante do Rio da Prata.

Em 1820 cessou a agradável (para D.João VI) e odiosa (para Carlota Joaquina) estadia da Família Real no Brasil.
Portugal estava num estado caótico, dominado pela regência despótica de William Beresford.
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Em 24 de Agosto de 1820 eclode na cidade do Porto um movimento liberal que logo se espalhou pelo país, consolidando-se com a adesão de Lisboa. Iniciado pelos militares descontentes com a falta de pagamento e por comerciantes insatisfeitos, conseguiu o apoio de quase todas as camadas sociais. A junta governativa de Lord Beresford que governava Portugal foi substituída por uma Junta Provisória, que convocou as Cortes Gerais Extraordinárias e Constituintes da Nação Portuguesa para elaborar uma Constituição.
A 17 de Outubro, chegou ao Rio de Janeiro a primeira notícia dos acontecimentos do Porto, e produziu em todo o Brasil grande comoção; ainda se tornou maior, quando se soube do completo êxito da revolução portuguesa e da convocação das cortes constituintes; então, uma após outra, as grandes cidades declararam a sua adesão ao que havia acontecido em Portugal.
Foi o chamado período do Vintismo
O povo português passou a exigir o retorno do rei do Brasil. Uma delegação foi enviada ao Rio de Janeiro para persuadir o Rei a aceitar o regime constitucional e voltar a Portugal.
D.João, que adorava o Brasil, dispôs-se a enviar para Portugal o príncipe herdeiro D.Pedro, com a incumbência de outorgar uma Constituição, mantendo a unidade entre o Brasil e Portugal com a capital no Rio de Janeiro.
D.Pedro recusou-se a vir para a Europa, antevendo a impossibilidade da manutenção da monarquia dual e prevendo a independência ou auto-determinação do Brasil.
Por outro lado, os portugueses não queriam que apenas D.Pedro regressasse, mas sim toda a família, recusando a proposta do Rei.
Pressionado pelos portugueses, D. João VI viu-se forçado a voltar para Portugal, embarcando a família no dia 24 Abril de 1821.

Na partida, Carlota Joaquina teve o seu grande momento.
A Rainha, que odiara a estadia no Brasil, ao entrar no barco que a haveria de trazer de volta a Portugal, tirou os sapatos, sacudiu-os na amurada e, clamando “Desta terra não quero nem o pó!” , jogou-os ao mar.
https://www.youtube.com/watch?v=iIqzxyjant0


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 Asunto: Re: Carlota Joaquina de Bourbon
NotaPublicado: 13 May 2019 10:35 
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José muito obrigado por uma história tão suculenta; as vezes que eu visitei o Rio de Janeiro e Lisboa, pude visitar os cenários em que passavam as vidas destes personagens da história. Sempre quis saber mais sobre eles.
(like) :bravo:


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 Asunto: Re: Carlota Joaquina de Bourbon
NotaPublicado: 13 May 2019 13:59 
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Tengo una pregunta: ¿Carlota Joaquina es la que apodaban "la enana peluda"? :shock:


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 Asunto: Re: Carlota Joaquina de Bourbon
NotaPublicado: 13 May 2019 16:39 
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A própria.

Descrição que Laura Junot deixou de Carlota Joaquina:
"a sua fealdade, seus cabelos sujos e revoltos, seus lábios muito finos e arroxeados adornados por um buço espesso, seus dentes, desiguais como a flauta de Pã".
E acrescentou :
"Não podia convencer-me de que ela era uma mulher e, entretanto, sabia de factos nessa época que provavam fartamente o contrário" :shock: :lol: :surprised:

Um historiador brasileiro descreveu-a assim:
" a mulher era quase horrenda, ossuda, com uma espádua acentuadamente mais alta do que a outra, uns olhos miúdos, a pele grossa que as marcas de bexiga ainda faziam mais áspera, o nariz avermelhado. E pequena, quase anã, claudicante (…) uma alma ardente, ambiciosa, inquieta, sulcada de paixões, sem escrúpulos, com os impulsos do sexo alvoroçados."


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 Asunto: Re: Carlota Joaquina de Bourbon
NotaPublicado: 13 May 2019 18:59 
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Se supone que se quedó pequeñita debido a un accidente que tuvo en la niñez (se rompió varios huesos). Claro, el resto de su fealdad no se debió al accidente . . .


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 Asunto: Re: Carlota Joaquina de Bourbon
NotaPublicado: 20 May 2019 05:57 
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Registrado: 19 Feb 2017 20:07
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O Regresso a Portugal e a Morte do Rei D.João VI :

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Depois do período de acalmia (ou de desilusões contínuas ?) no Brasil, em Portugal, D.Carlota Joaquina voltou ao seu melhor, com as baterias recarregadas e pronta para todas as intrigas.

Redigida a Constituição, D.João estava obrigado a jurar cumpri-la, e o mesmo deveria ter feito D.Carlota Joaquina.
No entanto a Rainha recusou-se terminantemente a fazê-lo.

As Cortes (e o Rei) tomaram uma decisão enérgica e musculada: ou D.Carlota Joaquina jurava a Constituição, ou perdia a dignidade de Rainha e de cidadã portuguesa, com todas as honras inerentes e seria ainda expulsa do reino, devendo escolher o local do exílio.
Carlota Joaquina manteve-se firme, alegando que já tinha tomado a decisão de que não juraria a constituição, e não era mulher para dar o dito por não dito .
Percebia as consequências de não jurar a constituição, mas a sua decisão era inabalável. Manhosa, fingiu acatar tudo, e dispôs-se a retirar-se para a sua quinta do Ramalhão até ter condições para sair do País, pois, segundo ela, estava muito doente e a deslocação para o estrangeiro (aproximava-se o inverno) seria fatal, o que, certamente, o seu “Augusto esposo” não quereria.

D.João VI enviou uma Junta Médica a Queluz que confirmou que a Rainha sofria dos pulmões e do fígado, tendo-lhe sido deferido o pedido de ficar em Portugal até se recuperar completamente.

Mas, à cautela. D.João mandou equipar uma fragata, a Pérola, que ficou de reserva até a Rainha estar recuperada, tal era a vontade que tinha de cumprir a ameaça !
Carlota Joaquina foi transferida para o Palácio do Ramalhão, em Sintra, onde pôde continuar a sua obra perturbadora.

A Quinta do Ramalhão

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D. Carlota Joaquina descobre Sintra pela mão D. Pedro de Menezes, filho e herdeiro do Marquês de Marialva, grande amante de Sintra (e não só!), e estribeiro-mor do Reino.
A família Marialva dispunha de duas grandes quintas em Sintra, uma das quais o famoso Palácio de Seteais, hoje transformado em Hotel de luxo
https://lookmag.pt/blog/a-nossa-experie ... e-seteais/

Imagen [=https://postimg.cc/TKwbf68J]Imagen[/url]

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Arco comemorativo da visita a Seteias de D.João e D.Carlota Joaquina.Curiosamente veio a enquadrar perfeitamente o Palácio da Pena, construído meio século depois.

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O palácio está decorado com pinturas de Jean Baptiste Pillement
(Tendo-se a família Marialva extinguido na linha varonil em 1823, o palácio viria a ser herdado por um sobrinho da última proprietária, o Marquês de Loulé, de quem se falará adiante. O palácio viria a ser adquirido pelo Estado Português em 1946 e funciona como Hotel desde 1954.)

Carlota Joaquina logo se apaixona pelo Ramalhão e a extensa propriedade, que quer só para si. Há uma grande probabilidade de tal escolha se dever a um refúgio para os "amores" (muito comentados na corte portuguesa) com o jovem Marialva de bela aparência e fino trato.
Marialva, um ano mais velho que Carlota Joaquina, conhecia muito bem a propriedade, pois aí conviveu com o seu grande amigo William Beckford alguns anos antes durante as suas estadias no Ramalhão em 1787 e 1794. É neste ano que Beckford terá testemunhado ou sabido destes amores pelo amigo.
Em Abril de 1802 o príncipe regente D. João, por vontade de sua mulher D. Carlota Joaquina que se encontrava grávida de D.Miguel, tinha adquirido a propriedade agrícola e palácio do Ramalhão . A compra é realizada por cerca de 15 contos de reis em apólices do Real Erário.
O procurador da princesa em todos os procedimentos da compra é o pai de D. Pedro, D. Diogo Vito, 5º marquês de Marialva.

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. D.Pedro Marialva D.Diogo Marialva

Laura Permon, mulher do General Junot, e então embaixador francês em Portugal, disse nas suas Memórias que: "O erário público pagava a um apontador para apontar as datas do acasalamento real, mas ele tinha pouco trabalho. Isso não impedia D. Carlota Joaquina de ter filhos com regularidade e, ao mesmo tempo advogar inocência e dizer que era fiel a D. João VI, gerando assim filhos da Imaculada Conceição." [...] "Mas uma coisa é saber-se que não era o pai, outra é dizer quem era o pai, porque D. Carlota Joaquina, não era fiel nem ao marido nem aos amantes".

O Ramalhão foi um local de paixão para a Princesa do Brasil. Este foi o local escolhido para reunir uma importante colecção de pintura (mais de uma centena de quadros). À acção de João dos Santos, nomeado cavaleiro da Ordem de Cristo, se pode ter ficado a dever a preservação de tão importante património durante as invasões francesas e todo o período conturbado que se seguiu e que levou ao desaparecimento de um assinalável espólio artístico do país. Parte significativa da colecção de pintura encontra-se actualmente no Museu Nacional de Arte Antiga.

O Ramalhão ficará também associado a lugar de alegados amores ilegítimos da princesa e depois rainha D. Carlota Joaquina. Sabe-se que depois da declaração como príncipe regente de D. João em 1792 o casamento não corria bem. Daí que o surgissem desde logo boatos sobre os possíveis amantes de Carlota Joaquina, na sequência de longas ausências do convívio com o marido D. João.
A D. Pedro, marquês de Marialva é atribuída a paternidade de D. Miguel nascido em 26 de Outubro de 1802 e a João dos Santos é atribuída a paternidade da infanta Maria da Assunção nascida em 25 de Julho de 1805. São muitas as versões e maledicências. D. Carlota passa longas temporadas no Ramalhão dedicada aos cavalos e à caça, enquanto o marido prefere Mafra.
João dos Santos era um homem bem apessoado conquanto não fosse de grande distinção

Neste exílio do Ramalhão Carlota Joaquina continuou a conspirar visando a abolição da Constituição.
Entretanto, em finais de 1822 houve novas eleições sendo eleito um novo parlamento, mais conservador.

A questão do juramento da Rainha voltou a estar em cima da mesa, mas, desta vez, um grupo de deputados conservadores conseguiu ilidir a questão.
Alegavam aqueles três razões irrefutáveis segundo as quais Carlota Joaquina afinal não teria que jurar a constituição:
1. Era estrangeira (apesar de estar casada com português há 38 anos, desde 1785 :roll: )
2. Era mulher (estando-lhe vedada a compreensão do que estava verdadeiramente em causa :lol: :whistling: ) Logo ela !
3. O marido já votara a constituição (sendo dispensável que a mulher também tivesse que o fazer :hehe: )

Deixavam assim de existir as razões que determinaram o exílio no Ramalhão de Carlota Joaquina, e a perda do tratamento e dignidade de Rainha, sendo reinstalada em todas as prerrogativas inerentes à sua pessoa.

A Vila-Francada

O ano de 1823 começara propício para os ideais absolutistas. Tropas francesas invadiram a Espanha a mando da Santa Aliança para esmagar o regime constitucional e repôr o absolutismo de Fernando VII.

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D.Miguel Vitorioso em Vila Franca

Atenta aos “bons ventos” que sopravam de Espanha, Carlota Joaquina, considerou que era altura de agir, e, servindo-se do filho mais novo D. Miguel, que ela educara na fé absolutista e que dominava politicamente, conseguiu que ele encabeçasse o movimento conhecido por Vila-Francada em 26 de Maio.
O Infante colocou-se à cabeça das tropas em Vila Franca de Xira, perto de Lisboa, e propôs-se marchar sobre a capital.

D.Carlota Joaquina e D.Miguel visavam a destituição de D.João, mas este antecipou-se-lhes e pôs-se do lado do movimento para melhor poder controlar os estragos e impedir a ascensão dos ultra-reaccionários.
Foi abolida a Constituição e dissolvidas as cortes, reposto o absolutismo régio, e, em consequência, foi levantado o desterro da rainha.
O próprio Rei foi a Sintra buscar Carlota Joaquina à quinta do Ramalhão, sendo a Rainha conduzida, triunfante :yay: :DD , ao paço da Bemposta, onde então residia D.João VI.


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O Paço Real da Bemposta ou, simplesmente, Palácio da Bemposta foi o palácio onde D. Catarina de Bragança – Rainha da Inglaterra pelo casamento com Carlos II – escolheu para viver depois de regressar da Inglaterra no final de 1692. Foi lá, também, que D. João VI veio a falecer em Março de 1826 e onde se desenrolaram os acontecimentos políticos mais importantes do seu reinado. Hoje é a sede da Academia Militar.

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Catarina de Bragança Carlos II Stuart

Durou pouco a harmonia conjugal entre Carlota Joaquina e o Rei :rayos: .
As hostes liberais agitaram-se e pretenderam a reposição da constituição.
Do lado contrário, as águas também andavam agitadas, e a hostilidade para com o Rei, que era acusado de proteger os liberais, crescia exponencialmente.

Em Fevereiro de 1824 deu-se o bárbaro assassinato do 1º Marquês de Loulé, no Paço de Salvaterra, onde a Família Real se encontrava.
O Marquês era amigo pessoal e estribeiro do Rei, que muito sentiu aquela morte.
O assassinato nunca foi desvendado e logo os detractores de D.Miguel acusaram o Infante de estar envolvido no crime, razão pela qual o processo nunca foi concluído.

D.João VI, como prova da amizade que tinha para com a casa de Loulé, confirmou o filho do 1º Marquês em todos os títulos e honrarias de seu Pai.
Deste 2º Marquês voltaremos a ouvir falar mais tarde.

A Abrilada:

No dia 30 de Abril de 1824, D.Miguel, que tinha sido nomeado generalíssimo do Exército Português, influenciado e atiçado uma vez mais pela Mãe, fez deter, nos calabouços
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do Castelo de São Jorge

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e nos da Torre de Belém,
importantes personalidades civis e militares do país, acusando-os de serem partidários do liberalismo e de conspirarem contra seu pai, D. João VI. Na declaração que profere nesta ocasião, D. Miguel diz ainda ser sua intenção acabar com o que denominava de "pestilenta cáfila de pedreiros-livres".
Enviou tropas para cercarem o Palácio da Bemposta, para “proteger” o Rei, impedindo-lhe o acesso dos embaixadores estrangeiros hostis ao absolutismo, nomeadamente os franceses e ingleses.
O corpo diplomático encontrava-se reunido na embaixada britânica, celebrando o aniversário de Jorge IV e de imediato se soube que o Rei estava prisioneiro no Paço da Bemposta.

Teve papel preponderante nesta crise o embaixador francês,

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Hyde de Neuville (1886-1857).

Este conseguiu introduzir-se no palácio e convenceu D.João VI a colocar-se sob a protecção do corpo diplomático.

No dia 9 de Maio, D.João informou que pretendia dar um passeio a Caxias, vila ribeirinha perto de Lisboa, onde a família tinha um palácio, mandado construir pelo Infante D.Francisco, filho de D.João V, e que fazia parte da Casa do Infantado.

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Ao passar junto ao Tejo, onde estavam atracados dois navios ingleses, manifestou interesse em visitar a “Windsor Castle”.
Sem de nada suspeitar, a sua guarda permitiu-lhe o acesso ao navio, onde estava reunido o corpo diplomático e várias figuras do liberalismo, entre os quais o duque de Palmela.
Assim que o Rei e as Infantas entraram a bordo, foi bloqueado o acesso à sua comitiva e escolta.
Os canhões dispararam uma salva e foi içada a bandeira portuguesa. Nessa altura, D.João VI transferira a sede do poder para um … paço flutuante.
Acompanhavam o Rei a filha predilecta, a Infanta D.Isabel Maria, o que viria a ter consequências nefastas para esta… e a Infanta D.Maria da Assunção.

A bordo da nau inglesa, D.João VI convocou D.Miguel à sua presença, destituiu-o dos seus cargos militares e impôs-lhe o exílio, tendo o Infante partido para Viena, com o título de Duque de Beja, a 13 de Maio.
Carlota Joaquina ficou inconsolável. Tinha perdido o seu grande trunfo e, pelo seu envolvimento na conspiração, foi condenada também ela ao exílio, desta vez em Queluz, e expressamente proibida de comparecer na Corte. Iria ficar quatro longos anos sem a presença do filho querido.

Entretanto, D.João mostrou-se muito agradado com o ambiente a bordo, no que era acompanhado pelas Infantas, quer pela variedade dos oficiais ingleses, quer pela diminuição da etiqueta, prolongando a estadia e demorando a regressar ao Palácio.

D.João VI consagraria os últimos anos da sua vida a tentar recuperar o Brasil para a esfera portuguesa, sonhando com a reunião das duas coroas, quiçá embalado pelo tratado de Paz e Aliança de 1825 através do qual, por um lado foi reconhecida a independência do Brasil, mas que por outro lhe conferiu o título honorífico e vitalício de Imperador.
Tinha a secreta esperança de que D.Pedro pudesse reinar nas duas nações, o que era de todo impossível, dada a secessão verificada e a oposição dos brasileiros à sujeição a Lisboa, e a dos portugueses a verem a ex-colónia como sua igual.

Morte de D.João VI

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A fonte do refeitório

A 4 de Março de 1826, D. João, visitara o Mosteiro dos Jerónimos onde almoçou, e regressou ao Paço da Bemposta, sentindo-se mal.
Começou com vómitos, convulsões e desmaios, que duraram alguns dias. No dia 9 de Março, foi oficialmente assinado o decreto para nomear a sua filha, a infanta D.Isabel Maria, como Regente.
Na noite do dia 9, supostamente, a doença agravou-se, e perto das 5 horas da manhã do dia 10, faleceu.
Os médicos da Corte não conseguiram determinar a causa da morte, mas suspeitaram de envenenamento.
O seu corpo foi embalsamado e sepultado no Panteão Real no Mosteiro de São Vicente de Fora.

No ano 2000, durante obras de manutenção da Igreja de S.Vicente de Fora, foi encontrado um pote de cerâmica chinesa que se sabia que continha as suas vísceras, procedimento habitual da família real.
Uma equipa de peritos médicos investigou o conteúdo, tendo submetidos a análises fragmentos do seu coração, tendo detectado uma quantidade de arsénico quatro vezes superior à necessária para matar um homem :shock: , confirmando as suspeitas de que o rei fora, na verdade, assassinado.

Se a vida de D.João não foi fácil, a morte também foi bastante atribulada.
Com base nos exames efectuados, os peritos concluíram que nenhum homem que tivesse ingerido a quantidade de arsénio encontrada no corpo do rei sobreviveria durante 6 dias .
Daí que tenha surgido a tese de que D.João teria morrido, no máximo, dois dias depois de ter sofrido os primeiros sintomas, a 6 de Março, e a sua morte tenha sido ocultada, com o propósito de ser preparado o documento que nomearia a Infanta D.Isabel Maria como Regente, sendo, por isso, forjada a assinatura do Rei.

Era importantíssimo que esse documento fosse redigido e apresentado à Nação, pois a regra vigente em Portugal determinava que caberia à Rainha a Regência no caso de faltar o Rei – vejam-se as regências de D. Mariana Victoria na incapacidade de D.José I, acima descritas.

Ora, ninguém queria Carlota Joaquina como Regente, nem os absolutistas, nem os liberais, e qualquer alternativa seria melhor, mesmo que isso envolvesse esconder a morte do Rei e falsificar a sua assinatura.
Sustenta esta tese o facto de não haver relatos de que as duas Infantas que viviam com o Rei, D.Isabel Maria e D.Maria da Assunção, sempre tão próximas do Pai, tivessem estado à sua cabeceira no dia 10, quando este oficialmente morreu.

Mais um mistério da vida atribulada e infeliz de D.João VI.

a continuar...


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 Asunto: Re: Carlota Joaquina de Bourbon
NotaPublicado: 22 May 2019 01:56 
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O Regresso de D.Miguel e a Morte de Carlota Joaquina

Com a morte do marido, Carlota Joaquina exultou. Escreveu logo ao filho D.Miguel, incitando-o a voltar quanto antes, e a repôr a velha ordem.

No entanto, a filha
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D.Isabel Maria
manteve-se firme aos ditames de D.João VI, contrariando os propósitos de Carlota Joaquina.
Escreveu para o Brasil ao irmão D.Pedro, dando-lhe conhecimento da morte do Rei e colocando as instituições ao dispôr do Imperador.

Este reconheceu e manteve a Regência, outorgou uma Constituição a Portugal, e combinou o casamento da filha D.Maria da Glória com D.Miguel.
D.Miguel, em Viena, aceitou as condições impostas por D.Pedro, e, em 1828, regressou a Lisboa.
Contudo, perante o entusiasmo e apoio que constatou, publicou uma declaração renegando o acordo celebrado com o irmão e tomou o trono para si, o que viria a originar uma sangrenta guerra civil que só terminaria em 1834.
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Carlota Joaquina e D.Miguel

Durante o reinado de D. Miguel, Carlota Joaquina não viria a ter papel relevante na governação daquele que fôra o seu filho predilecto, pois este manteve-a afastada, em Queluz. Na verdade, o próprio príncipe não a mandou chamar do desterro assim que subiu ao trono, vindo a falecer só, esquecida, triste e amargurada. Segundo alguns historiadores, este facto é um dos vários indicadores de que teria existido um afastamento gradual entre mãe e filho nos últimos anos de vida daquela.

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Carlota Joaquina no fim da vida.

A Rainha sofria de duas graves doenças, nos pulmões e nos ossos. Nos últimos dias de vida, estaria praticamente imobilizada. Quando tentavam levantá-la, sentia dores horríveis.
Nos últimos tempos não se conseguia mexer, nem sequer para realizar a sua higiene diária, o que provocou uma morte degradante para uma mulher que fôra tão altiva, orgulhosa e consciente do seu papel e estatuto.

Faleceu em 7 de Janeiro de 1830 em Queluz. Sozinha, e sem nenhum dos filhos por perto.

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Quarto onde morreu Carlota Joaquina

Jaz no Panteão Real da Dinastia de Bragança, ironicamente bem ao lado do seu marido D.João VI, no Mosteiro de São Vicente de Fora em Lisboa.

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Carlota Joaquina instituiu uma ordem exclusivamente destinada às senhoras, com a autorização do príncipe regente, por decreto de 4 de Novembro de 1801, com a designação de Ordem das Damas Nobres de Santa Isabel, cujos estatutos foram confirmados pelo alvará de 25 de Abril de 1804.
A criação da Ordem não foi totalmente inocente e com meros intuitos de benemerência.
Enquanto D.João, enquanto Príncipe-Regente, podia criar títulos, conferir ordens e comendas e distribuir cargos, através da Ordem das Damas Nobres de Santa Isabel, D.Carlota pretendeu contra-balançar esse poder e criar uma forma de angariar uma falange de apoiantes, intencionalmente através das Damas que, por essa via, poderiam influenciar os maridos, filhos ou irmãos para se passarem para o lado da Princesa.

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A insígnia desta ordem, (com banda de cor-de-rosa com lista branca ao centro) consiste num medalhão coroado, com a figura da rainha Santa Isabel de Portugal num acto de Caridade, dando esmola a um mendigo, e contendo a legenda latina Pauperum Solatio.
Actualmente, é grã-mestre da Ordem das Damas Nobres de Santa Isabel a Duquesa de Bragança, D.Isabel.

Carlota Joaquina foi, simultaneamente, uma mulher do passado, muito arreigada aos ideais do Ancien Régime e completamente avessa aos princípios do liberalismo, mas também uma mulher do futuro, diríamos quase emancipada, consciente do seu papel enquanto filha e neta de Reis.
Dotada de ânimo forte e varonil, a sua personalidade viria a chocar de frente com o carácter ponderado e indeciso do marido, que adiava continuamente os problemas, na esperança que estes se resolvessem por si.

Apesar de ter recebido a educação normal de qualquer princesa destinada a casar e procriar, dando herdeiros ao marido, educação que passava pelas línguas, história, geografia, religião, música e dança, D.Carlota Joaquina teve sempre grande apetência para a política e, durante toda a vida, procurou aprender mais sobre aquela “arte”. Testemunha-o o Catálogo da Livraria da Rainha, conservado na Biblioteca do Palácio da Ajuda, com obras de autores diversos como Bossuet e Chateaubriand, Condorcet ou Rousseau.
Politicamente, Carlota Joaquina foi uma verdadeira auto-didacta.

Desde pequena que ambicionou cingir uma coroa. Primeiro, a espanhola, verificando que até aos 10 anos, quando partiu para Portugal, seus pais tiveram 5 filhos varões, dos quais 4 morreram em criança, e o quinto, o futuro Fernando VII, poderia seguir os irmãos.
Era, assim, a filha primogénita sobrevivente dos Príncipes das Astúrias e via-se certamente como uma segunda Isabel a Católica.
Desfeito esse sonho, ambicionou a Regência de Portugal, argumentando que o marido padecia dos mesmos sintomas de loucura da sogra, a Rainha D.Maria I, devendo ser apeado da regência.
A esse respeito, chegou mesmo a escrever ao Pai uma carta em que lhe pedia que este solicitasse a D.João que se afastasse voluntariamente ou, se o não fizesse, as tropas espanholas deveriam invadir Portugal e instalar D.Carlota como regente até à maioridade do filho D.Pedro.
Foi a chamada “Conspiração dos Fidalgos” para a qual atraíra parte da alta nobreza, mas que foi descoberta e contrariada, sendo a princesa exilada da Corte.
Longe de se deixar abater, Carlota Joaquina soube fazer das fraquezas força, e, reconhecendo o amadorismo da conspiração, pôde compreender o que falhara e estudar melhor a próxima jogada.
O revés seguinte deu-se na América Latina quando se propôs ser Rainha da Cisplatina e do Perú, argumentando que era a única pessoa da família Bourbon de Espanha que não se encontrava detida pelas autoridades francesa, mas em liberdade.
Aí as contrariedades vieram da própria família com o Rei de Nápoles a considerar que, sendo varão, tinha prioridade sobre Carlota Joaquina.
Aparentemente, nem um nem a outra sabiam que, com receio da falta de herdeiros varões, Carlos IV tinha abolido a Lei Sálica através de um protocolo que se mantivera secreto.
Se a ideia de um trono na América do Sul não era de todo antipática a D.João, que assim se via livre da mulher, já a Inglaterra foi contra a ideia, preferindo o desmembramento do império colonial espanhol que lhe permitia acordos comerciais mais vantajosos.
Por último, ao regressar do Brasil, sonhou de novo com a coroa portuguesa, desta vez por intermédio do filho querido D.Miguel, o que veio a acontecer.
Se o seu papel durante o reinado do filho foi quase nulo, teve a felicidade de ver coroado o filho a quem transmitira os seus ideais políticos.
Faleceu a 7 de Janeiro de 1830, tendo sido poupada a ver D.Miguel perder a sua realeza.
Se as principais potências europeias, Inglaterra, França, Áustria, Espanha, Rússia e a Santa Sé, tinham reconhecido os direitos de D.Miguel ao Trono, em 1830 a situação inverte-se.
Em França, o conservador Carlos X perde a coroa na revolução de Julho, a favor do liberal Luis Felipe e em Inglaterra, o conservador Wellington perde as eleições para o liberal Palmerstone.
A roda da história começa a girar no sentido do apoio ao liberal D.Pedro e à sua filha D.Maria da Glória, facto que Carlota Joaquina não revê que testemunhar.

Relativamente à sua vida privada, o afastamento do marido, aparentemente definitivo a partir de 1802, mereceu a crítica áspera dos seus opositores, que a associaram ao comportamento licencioso da Mãe Maria Luisa de Parma, julgando tal Mãe, tal filha.
O certo é que D.Carlota sempre foi extremamente discreta e nunca foi apanhada “com as calças na mão”.
Mas quando se quer enlamear alguém, qualquer argumento serve, e os vícios privados e não testemunhados prestam-se perfeitamente.

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O historiador e escritor argentino Marsilio Carsotti, na sua obra “Carlota Joaquina – o Pecado Espanhol”, defende que a princesa/rainha era demasiado classista para ter relações sexuais com seres inferiores como criados.
https://www.facebook.com/watch/?v=1833641613342176
De resto, a sua lenda negra, dá como pai das filhas mais novas um tal João dos Santos, apontando-lhe o facto ser um simples jardineiro no Palácio do Ramalhão, quando, na verdade, era o secretário/almoxarife do palácio.


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